Primeira Impressão
Mãe, esta é a Mariana disse Miguel com um certo constrangimento, apresentando a jovem que trouxera para casa a uma hora tão avançada.
Boa noite respondeu Dona Leonor, medindo a visitante inesperada com um olhar desaprovador. Que hora encantadora para apresentações! Quase meia-noite…
Eu avisei ao Miguel que era tarde defendeu-se logo Mariana. Mas ele me ouve? Teimoso como só ele!
“Bem jogado,” pensou Dona Leonor, amargurada. “Justifica-se e pinta-o como um tirano. Essa rapariga não cai bem.”
Entrem suspirou, retirando-se para o quarto sem mais palavras.
O que poderia fazer? Expulsar o único filho no meio da noite? Por causa de uma desconhecida? Se quisessem viver juntos, que assim fosse. Uma mãe existe para proteger o filho e abrir-lhe os olhos. E ela, Leonor, faria isso depressa. Miguel acabaria por mandar a namorada de volta de onde veio, sem remorsos. Até ficaria aliviado!
A noite inteira, Dona Leonor ruminou um plano para afastar Mariana do apartamento.
Não se opunha ao casamento do filho. Aos trinta anos, já era hora de formar família.
Mas não com ela!
Primeiro, era bem mais nova. Prova de que lhe faltava juízo.
Aquilo, uma esposa? Uma mãe? Dona de casa?
Depois, a atitude falava por si: aparecer na casa dos outros a horas impróprias, sem sequer pedir desculpas! E ainda ousara acusar o filho querido, sem motivo!
E ainda por cima passara a noite!
Será que era hábito ou exceção?
Enfim. Dona Leonor, simplesmente, não gostava dela.
E Miguel acabaria por sentir o mesmo.
Para quê perder tempo?
O plano tornou-se desnecessário. A própria Mariana deu-lhe todas as oportunidades de pôr as coisas no lugar.
O primeiro sinal veio de manhã.
Trancou-se na casa de banho… por uma hora.
Miguel, impaciente, perambulava pelo apartamento, cada vez mais irritado.
Meu filho, o que se passa? perguntou Dona Leonor, com uma doçura exagerada. A rapariga está a arrumar-se, quer agradar-te…
Mas tenho de ir trabalhar!
Então bate à porta, explica que não está sozinha aqui sugeriu a mãe.
Isso seria constrangedor resmungou. Falamos depois. E tu, mãe, não vais chegar atrasada?
Eu? Não. Estou pronta há tempos. Olha, fiz panquecas. Vem tomar o pequeno-almoço.
Nem me lavei ainda!
Paciência, lavas-te depois. Por agora, não percas tempo come bem, precisas de forças para o dia.
Miguel sentou-se à mesa.
Foi então que Mariana saiu da casa de banho, uma toalha na cabeça, radiante.
Finalmente! exclamou Miguel, correndo para o espelho embaciado.
Lavou-se às pressas, barbeou-se a correr, engoliu uma panqueca em três bocados e, já à porta, disse:
Até esta noite! Espero que se deem bem.
Miguel! chamou Mariana. Íamos buscar as minhas coisas hoje.
Vamos. Hoje à noite. Não te aborreças! A voz dele já ecoava nas escadas.
Dona Leonor levantou-se, fechou a porta atrás do filho, virou-se para Mariana e perguntou secamente:
Não tens vergonha?
Não respondeu a jovem, sorrindo. Deveria?
O Miguel vai chegar atrasado por tua causa!
Não chegará. Certamente apanhará um táxi. Não se preocupe, tudo ficará bem.
Seja como for, lembra-te: não estás sozinha aqui. Se quiseres monopolizar a casa de banho uma hora de manhã, levanta-te mais cedo. Felizmente não trabalho hoje.
Não se repetirá disse simplesmente Mariana. Peço desculpa.
Dona Leonor ficou boquiaberta. Esperava uma discussão, e eis que…
Está bem resmungou, dirigindo-se à casa de banho.
O primeiro objeto que lhe chamou a atenção foi um tubo de pasta de dentes, aberto enquanto o anterior ainda não acabara.
Mariana, por que abriste uma pasta nova?
Prefiro esta.
Espero que tragas a tua? E o teu champô?
Claro, Dona Leonor…
E as tuas toalhas!
Trarei…
Apesar das tentativas de provocar uma briga, Mariana não caiu em nenhuma armadilha. Concordava com tudo, acenava educadamente, “tomava nota” das obrigações futuras.
Sem argumentos, Dona Leonor partiu para o ataque frontal.
Por que vieste para cá?
O Miguel e eu amamo-nos…
Claro que o amas, um rapaz daqueles! Mas eu não entendo: o que é que ele vê em ti?
Não lhe perguntei…
E os teus pais?
A minha mãe é costureira.
E o teu pai?
Nunca o conheci.
Compreendo. Uma filha sem pai. E como pensas ser uma boa esposa para o meu filho?
Farei o meu melhor…
Por mais que tentes, não resultará. O meu filho não te ama. Apenas pensa que sim. Eu conheço-o! E nunca te casará! Por que o faria? Já te tens aos pés dele.
Ele ama-me murmurou Mariana, a voz trémula. Tenho certeza.
Estás a iludir-te. Pensas que és a primeira?
Não… mas isso não importa…
Não importa? Vai cansar-se de ti numa semana! Não estás à sua altura! Inteligência, conheces?
Conheço. Mas aqui, a palavra é mal escolhida.
E por quê?
Tenho um diploma universitário.
E daí? Olha, rapariga, volta para tua casa. Este não é o teu lugar. Tento explicar-te desde esta manhã, mas não queres ouvir.
Está bem, irei embora. Mas o que dirás ao Miguel? Ele não vai gostar.
Isso não é problema teu! Vai-te embora e não voltes. Não és bem-vinda.
Dona Leonor surpreendeu-se com a própria crueldade. Nunca imaginara dizer tais palavras. Os insultos saíam sem controle.
E Mariana?
A jovem olhou-a, compreendendo perfeitamente.
A mãe estava com ciúmes. Mal se conheciam, e já o ódio fervia. E era só o começo…
A porta da frente bateu: Miguel chegara mais cedo.
Já? irritou-se Dona Leonor, que contava ver Mariana desaparecer antes do seu regresso.
Deixaram-me sair! exclamou ele, alegre. Disse que tinha um assunto de família. Ouviste, Mari? De família!
Que assunto? rosnou Dona Leonor.
Vamos declarar a nossa união na câmara, depois buscar as coisas dela! Mari, prepara-te!
Dona Leonor, com o coração apertado, percebeu que perdera muito mais que uma batalha talvez arruinara para sempre a chance de ser avó.







